Marcelo de Lima Henrique revisita momentos marcantes da carreira

Aos 55 anos, depois de 32 temporadas atuando como árbitro profissional, Marcelo de Lima Henrique está se habituando à vida sem um grande jogo para apitar nos fins de semana. Ele anunciou a aposentadoria no ano passado e se emocionou depois de comandar seu último jogo, o empate no clássico entre Ceará e Fortaleza, em 13 de setembro, pela Série B do Brasileirão. Se dependesse de si, ele garante que continuaria apitando. Mas as escalas estavam cada vez menos frequentes.

Em entrevista ao Abre Aspas, do ge, Marcelo revelou que ganha mais dinheiro agora, rodando o Brasil para fazer jogos de várzea e pilotar workshops de arbitragem. Mas seu grande objetivo é virar presidente de comissão ou, de alguma forma, liderar um projeto de formação. Ele quer se tornar gestor: "No Ceará, no Acre, em São Paulo, vai ser em algum lugar".

Sem rodeios, Marcelo de Lima Henrique comentou os erros e os acertos de uma carreira construída em sua maior parte sem ajuda do árbitro de vídeo, numa época em que valia somente a decisão do árbitro de campo na hora do lance. E passou as polêmicas a limpo: do gol de Márcio Araújo na final do Carioca de 2014 à expulsão de Jonathan Jesus, do Cruzeiro, no Brasileirão do ano passado.

Ficha técnica:
- Nome: Marcelo de Lima Henrique
- Nascimento: 26 de agosto de 1971, no Rio de Janeiro (RJ)
- Família: filho de José Henrique Neto, que foi árbitro aspirante da antiga CBD por 17 anos. É casado com Sandra Gomes Henrique, com quem tem três filhos.
- Profissão: Fuzileiro Naval da Marinha.
- Carreira: foi árbitro profissional por 32 anos, fez parte do quadro da Fifa entre 2008 e 2014. Nos últimos cinco anos de carreira, apitou no quadro cearense.
Marcelo de Lima Henrique concede entrevista no Abre Aspas, do ge — Foto: André Durão / ge
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Abre Aspas: Marcelo de Lima Henrique
Como anda a vida de árbitro aposentado? Depois de mais de 30 anos de carreira, a ficha caiu?
— Desde o último jogo, foi uma grande emoção lá no Clássico-Rei, eu digo para a galera que estou passando por um deserto (risos). É aquele deserto em que o telefone para de tocar, eu não olho mais as audiências das escalas, não tenho mais o preparativo de um árbitro de alto nível, que são treinamentos de alta intensidade. A gente tá nesse limbo, no deserto, mas tem muita coisa acontecendo, muitos projetos. Com árbitros amadores, workshops de arbitragem que eu toco, aulas, palestras. E fazendo várzea pelo Brasil todo. Mas realmente ficou aquele vácuo daquela emoção de estar em grandes jogos. A ficha ainda não caiu, ainda estou tentando assimilar (risos).
Se dependesse de você, você continuaria apitando, certo?
— Ah eu sou aquele cara fominha, a família sabe. Se dependesse de mim, eu apitava mais um pouquinho, sim. Mas a gente tem que olhar o mercado, tem que olhar as coisas como estão ocorrendo. Está tendo uma renovação muito grande no futebol, e a gente tem que entender isso. Acho que tem uma nova etapa na minha carreira, que eu posso agregar aos mais jovens.
Você se mostrou grato ao futebol cearense numa entrevista logo depois do seu último jogo. Você apitou no Ceará nos últimos cinco anos da sua carreira. Deu para criar uma identificação, mesmo sendo carioca?
— Eu cheguei ao Ceará em 2022, rapidamente me identifiquei porque sou um árbitro que vem de baixo, da várzea. Até solicitei ao meu diretor que meu primeiro jogo fosse no interior, no calor do sol a pino. Foi na cidade de Barbalha, as condições não eram boas. E comecei a me identificar com a galera dali, rodei o Ceará todo, tenho muita consideração pelos clubes e pelo Ceará, porque foram meus últimos cinco anos de carreira. Já um pouco mais velho que todo mundo, eu segui apitando, e a federação cearense sempre me apoiou nas minhas demandas. E a última partida foi uma emoção especial, porque, quando eu levantei o braço para o quarto árbitro e sinalizei cinco minutos de acréscimos, aí caiu a ficha. "Caramba, faltam cinco minutos para eu encerrar, para sair dessa atmosfera do futebol pentacampeão do mundo". Fiquei muito tempo dentro do futebol pentacampeão do mundo. Fui um ex-goleiro de base que queria estar em campo. Foi muito emocionante e gratificante viver aquilo tudo.
Sabe em quantos jogos você trabalhou?
— Foram 32 anos de carreira, eu iniciei em 95. 32 temporadas, desde 2002 na CBF. Foram muitos jogos, entre profissionais e amadores, eu perdi até as contas. Mais de 1.150 jogos profissionais. São muitos jogos especiais, foi uma carreira bacana.
Marcelo de Lima Henrique concede entrevista no Abre Aspas, do ge — Foto: André Durão / ge
Você consegue escolher um só momento como o mais marcante da carreira?
— Eu senti que eu realmente era árbitro, "agora sou árbitro de verdade", quando fui apitar Uruguai x Argentina no Centenário, em 2013, valendo vaga para a Copa do Mundo. O Uruguai tinha que vencer a Argentina para ir para a repescagem da Copa do Mundo. Aquele estádio ali de 1930, aquilo é futebol, ali é bacana. Quem não foi tem que ir ao Centenário, foi muito marcante para mim.
E como foi esse jogo?
— Foi 3 a 2 Uruguai. Foi muito interessante porque o Uruguai tinha 10 jogadores pendurados. Se tomasse o terceiro amarelo, não ia jogar a repescagem. O capitão Lugano, que jogava no São Paulo, muito preocupado. "Marcelo, a gente está com muitos jogadores pendurados". Eu falei "Amigo, joga bola, cara. Só não seja covarde, não dá de mão que vai dar tudo certo, o jogo vai ser bom". Se não me engano, o jogo teve um cartão amarelo para um jogador da Argentina. O resto levei no gogó. Aquele futebol, daquele dia, pedia isso. E arbitrar também é isso, é entender a atmosfera em que você está para entregar o melhor para o futebol. Então foi um momento muito marcante na minha carreira.
Grande parte da sua carreira foi sem VAR, numa época em que o que valia era somente a decisão do árbitro de campo na hora. Olhando para trás, você se arrepende de algum lance ou decisão?
— O que marca os erros do árbitro central são penais certos ou mal marcados. Eu não me lembro de uma grande decisão de ter tido um penal que eu marquei e me arrependi. Teve um penal que eu marquei em 2008, Flamengo x Botafogo, em que o Ferrero segura o Fábio Luciano, a favor do Flamengo. A torcida do Botafogo reclamou demais. Mas, na segunda-feira, a capa do jornal O Globo era essa foto do Fábio Luciano praticamente sem camisa. Eu fiquei assim no trânsito "Caramba, e se eu não marcasse esse penal?". Ainda bem que eu consegui ver esse penal. Mas eu não me lembro de tragédias na minha carreira, em grandes decisões, não.
"Em 2014, eu apitei uma final de Carioca, e foi um momento que, se eu pudesse apagar esse jogo, eu apagaria. Mas não pela minha atuação, mas pelo conjunto da equipe. O Flamengo foi campeão com um gol impedido".
— Mas a gente sabe que é setorizado, não tinha VAR. O assistente validou o gol, e eu, como árbitro central, é tudo muito rápido, a gente não consegue ver. Se eu pudesse, eu voltava atrás, sim, porque a gente quer que o jogo seja referendado, com a decisão correta, pelas entidades. São grandes clubes que merecem o nosso melhor. Então, esse jogo ficou marcado, embora não tenha sido um erro direto meu. Mas, se eu pudesse, eu voltava atrás, sim.
Como foi o início da carreira de árbitro? Era um objetivo? Foi algo por acaso?
— Então, eu era goleiro, né? Eu joguei no America, no Bangu, em Mato Grosso do Sul. Aí entrei para ser fuzileiro naval com 17 anos. Queria receber um salário porque no futebol estava muito difícil para ganhar dinheiro. E meu pai foi árbitro, ele me levou para fazer o curso, fui praticamente obrigado (risos). Ele me pegou um dia, “Vamos ali fazer a inscrição”. E eu fui, fiz a inscrição, ganhei metade da bolsa. Mesmo assim, eu não tinha condições de pagar o restante dela. Ele disse “Vou pagar para você o início”. Só que, com um mês de curso, eu já estava fazendo vários jogos de várzea, de pelada na Barra, nos condomínios. Eu vinha de segunda a segunda, com um mês já estava ganhando dinheiro. Aí eu falei “Não, pai, eu vou pagar meu curso”.
"Eu não queria ser árbitro. Só que aí, 'opa', despertou a paixão daquele garoto que estava no campo querendo ser goleiro. Agora eu estava no campo novamente. Eu falei 'caramba, é aqui que eu vou estar inserido no futebol'".
Você já havia atuado como goleiro no profissional?
— Não joguei profissional. Eu morava numa rua no bairro de Ricardo de Albuquerque, em que outros quatro meninos jogavam no América. Um tomou gol, o outro vai para o gol. Aí chegou minha hora de ir para o gol. Eu pulava naquela rua de paralelepípedo, de asfalto, para lá e para cá. O pai do menino me viu agarrando e falou “Cara, tu é melhor do que o goleiro que está lá no America”. Aí me levou para o America sub-13 e comecei a agarrar.
— Dali eu fui para o Bangu, onde me pagavam melhor. Fui para o Bangu sub-15. Depois, minha família foi morar em Mato Grosso do Sul, e lá eu joguei no Operário Comercial. Vim jogar a Copa Rio aqui, e o Bangu me contratou de novo, na época do Doutor Castor, que estava em cima. Embaixo, quem tomava conta da base era o Carlinhos Maracanã. Também era daquela galera ali, era ex-presidente da Portela e pagava muito bem. Só que entrei para ser fuzileiro e, logo com dois anos, me pegaram para ser goleiro da seleção da Marinha e da seleção das Forças Armadas. Eu viajei muito agarrando, joguei Mundial Militar até 34 anos de idade na Alemanha. Mas, profissionalmente, não cheguei a agarrar, não.
Marcelo de Lima Henrique, quando era goleiro, ao lado do pai, o então árbitro José Henrique Neto, no Mato Grosso do Sul em 1987 — Foto: Arquivo Pessoal
Você costuma ajudar na formação de novos árbitros, não é verdade?
— Na minha cidade (Itaboraí), eu criei um projeto muito bacana, do qual tenho muito orgulho. Eu comecei em 2014 com 11 árbitros, garotos jovens, fui trabalhando com a molecada. Infelizmente, um faleceu. Dos 10, oito tinham idade para serem árbitros da CBF. E esses oito, hoje, são da CBF. Eu pretendo trabalhar com arbitragem, instruindo. Tentar devolver o que eu aprendi. Afinal de contas, são 32 anos na arbitragem. Tenho certeza de que, onde eu tiver uma gestão, eu vou tentar transformar a arbitragem. Acho que tem muita coisa para ser feita na área. A tecnologia está aí, mas a gente tem muita coisa para resgatar lá do passado, em relação à mecânica de arbitragem. Então quero trabalhar no meio, tenho muita vontade de continuar com isso. Vamos ver o que vai acontecendo...
O goleiro Marcelo de Lima Henrique era compreensivo com os árbitros?
— Eu sempre ajudei a arbitragem, sempre ajudei. Até porque meu pai foi árbitro. Eu sei a dificuldade, sempre fui um líder positivo, sempre tentei trazer arbitragem para o lado da minha equipe, e isso era um fator bacana. Era um fator legal, deu para levar na boa.
Recentemente houve uma troca no comando da comissão de arbitragem do Ceará, depois que o antigo presidente foi afastado por denúncias de assédio sexual contra árbitras. Você chegou a criar expectativas de assumir a comissão?
— Desde que fiz 45 anos de idade, nós já tivemos várias trocas de presidentes de comissão. Se eu não me engano, nesses últimos 10 anos, foram quatro ou cinco trocas (na CBF). No Ceará, enquanto eu estou lá, toda vez que tem uma mudança e que tem uma troca de presidência de comissão, o meu nome vem à tona na nossa “rádio apito”, vamos dizer assim. Porque, entre os colegas, eu exerço uma liderança, eu tenho muito tempo ali, a galera sabe que sou estudioso e gosto dessa área de gestão. Na própria CBF, quando teve essas trocas, a galera começa a me ligar. “Marcelo, será que agora tu vai ser da comissão?”. Sempre tem a “rádio apito”, no Ceará não foi diferente. Teve, sim (essa possibilidade). O meu desejo é de contribuir com a arbitragem nacional e estadual. Eu tenho certeza de que, onde eu entrar, vou tentar transformar principalmente o ambiente.
Como pensa o gestor Marcelo de Lima Henrique?
— Quem estuda gestão e liderança sabe que o ambiente para trabalhar tem que ser um ambiente saudável, tem que ser um ambiente positivo, em que todos se sintam bem. A gente está numa nova era, aquela era de “Eu mando, eu posso, obedece” não existe mais. Tem que arrastar pelo exemplo. Eu acho que todo mundo que está em cargo de liderança tem obrigação, sim, de criar um ambiente positivo para que todos se desenvolvam. Essa é a missão do líder. Eu tenho essa missão. Eu tenho certeza de que uma hora vai acontecer. Se não for no Ceará, vai ser no Acre, vai ser em São Paulo, vai ser em algum lugar. Mas vai acontecer, sim. Eu me preparo para liderar um projeto de arbitragem ou para compor, junto com a liderança, um projeto de arbitragem naquilo em que eu acredito.
Essas mudanças de comissão são iguais às mudanças de treinador? Mudam muito o ambiente?
— O futebol brasileiro ultimamente está um moedor de técnicos e um moedor de presidente de comissões também (risos). Ninguém conseguiu, nas últimas quatro gestões, fazer um trabalho de longo prazo. Você fazer um trabalho, conhecer os árbitros, fazer um diagnóstico, colocar a sua filosofia em prática. O Wilson Seneme ficou dois anos. No nosso meio, ele é um grande instrutor, uma pessoa por quem a gente tem muito apreço, sabe tudo de arbitragem, mas não conseguiu implementar o trabalho dele.
"Por quê? Porque a cada final de semana é uma gritaria. O Brasileirão mói árbitros, mói técnico, então é muito complicado. Eu espero que o novo presidente Sandro Meira Ricci consiga fazer um bom trabalho".
Falta paciência?
— As pessoas exigem muita renovação e não têm paciência. A gente tem que ter um pouco de paciência com a arbitragem. Se começar a perguntar para torcedor, todo mundo diz que arbitragem está ruim. Se for na Espanha, é a mesma reclamação. Na Argentina, a mesma reclamação. Só que, lá, as trocas não são como aqui. Eu acho que a gente tem que dar tempo para as pessoas serem capazes de trabalhar. Obviamente, se o trabalho estiver ruim, que se troque. Mas tem que ter um projeto, tem que ter uma continuidade. O Brasil é muito grande. Se você for olhar Série D, que começou com 90 e poucos clubes, o torcedor quer o Collina apitando o primeiro jogo da primeira fase, quer o Raphael Claus, o Marcelo de Lima, o Daronco, e não é assim. O Brasil é muito grande. E a Série A, mais ainda. A Série A quer toda rodada os maiores apitando ali. Então é muito complicado. Temos que ter um pouco de paciência. Temos que melhorar, sim, mas são muitas mudanças. Eu não acho isso salutar.
E esse projeto de profissionalização da arbitragem que entrou em vigor este ano, você enxerga como um avanço?
— Eu vejo como um avanço, é uma segurança. Porque eu já fiquei sem apitar no Rio de Janeiro nove meses, punido. Eu já fiquei sem apitar na Conmebol 10 meses quando era Fifa, e você fica com insegurança. Eu já fiquei dois meses sem arbitrar no Brasileirão por causa de um erro meu. Só que o jogador perde o gol na cara do gol e não é punido. O salário dele está lá. Então acho que foi um avanço importante, sim, esses 72 terem essa remuneração fixa. Eu nem sei de cabeça quanto é, porque eu não estou nesse grupo.
O teto é R$ 22 mil. Vocês acham um valor justo?
— Eu acho que é um valor razoável para esse primeiro momento, sim. Acho que é razoável você saber que tem, por mês, ali garantidos R$ 20 mil. Vamos dizer, é uma taxa de três jogos de Série A, né? Série A paga R$ 7 mil, então é uma taxa que você consegue sobreviver no nosso país de maneira razoável. “Ah, Marcelo, sobreviver?”. Árbitro é outra coisa, gente. Arbitragem tem toda uma preparação, tem toda uma situação. A galera que está no futebol entende o que eu estou falando, mas eu acho que deve melhorar nos próximos anos, pelo que eu tenho acompanhado.
A CBF tem investido na melhoria da arbitragem, com o projeto de profissionalização e tecnologia do impedimento semiautomático, por exemplo. Na sua opinião, por que as polêmicas não param de acontecer?
— Eu penso o seguinte: a gente quer muito descolar o futebol, botar numa bolha do que acontece na sociedade. O que acontece no futebol é mais ou menos o que acontece na nossa sociedade. A gente quer que o árbitro seja autoridade dentro do campo de jogo, mas a gente tem na nossa sociedade latina e até mundial uma quebra de respeito às autoridades, uma quebra de respeito ao professor na sala de aula, aos pais. E aí nós queremos que o árbitro dentro de campo diga: "Não, aqui ninguém fala com árbitro dentro de campo, ele vai ter a autoridade total”.
"Eu acho que a gente tem que começar a se educar, a se reeducar como mundo mesmo. A coisa está muito complicada. Você dá uma opinião sobre alguma coisa, sobre qualquer situação, você é atacado na rede social. Imagina o árbitro que está exposto, com duas torcidas, apaixonadas".
Marcelo de Lima Henrique concede entrevista no Abre Aspas, do ge — Foto: André Durão / ge
— A maioria das pessoas acha que o árbitro vem de Marte, que ele vem numa nave, apita e não tem família. Não tem zelo pelo árbitro. O árbitro é moído. E ele vai errar e acertar como qualquer pessoa. Eu imagino um atleta, um jogador de uma grande equipe que perde um pênalti numa final. Esse cara não pode sair de casa, e com árbitro é a mesma coisa. Quando você tem um equívoco numa final de campeonato ou quando alguém acha que você tem um equívoco. Eu acho que a coisa é cultural.
— “Ah, Marcelo, isso vai melhorar”. Eu acho difícil melhorar. A gente pode amenizar. Como? Humanizando mais a arbitragem. Esse nosso bate-papo é bacana por isso. Não para as pessoas terem peninha do Marcelo. “Ah, tadinho do Marcelo. Ele é árbitro, vou poupá-lo”. Não é isso. É para saber que nós somos humanos, que a gente vai errar e acertar. Mas o problema é educacional, como tudo o que está acontecendo na nossa sociedade. E o futebol não vai ficar à parte. Os clubes perdem o jogo, os jogadores brigam no campo e, no ano que vem, eles estão no mesmo clube, abraçados. Então falta muita ética. Falta muita educação. Infelizmente. Isso vai melhorar? Torço para que melhore, mas acho difícil.
Você acredita que a arbitragem, em algum momento, vai deixar de estar no centro das discussões?
— Não vai sair de pauta. Já fiz vários jogos em grandes estádios, tem torcedor que só vai ao jogo para xingar o árbitro, nem vê o jogo. É só ir a qualquer grande estádio, é surreal (risos). Acho que ele vai desafogar a alma: "Vou ali aliviar minha alma, o Marcelo é o culpado pelo meu carnê atrasado, pela minha mulher que brigou comigo". Faz parte do folclore. Mas obviamente a gente não pode ficar numa bolha e achar que a arbitragem está excelente no Brasil e no mundo. A gente tem que melhorar o tempo todo. O futebol, cada vez mais, exige excelência. Por isso que é importante quem está na gestão cobrar excelência desde o jovem quando se forma até o meio de carreira e até o final. Por isso que eu tentei, até meu último jogo no Clássico-Rei, ser excelente. Porque o futebol exige isso. E a arbitragem vai ser pauta o tempo todo.
Como você lida com as críticas, especialmente nas redes sociais? Seu perfil é aberto?
— É bacana, eu estou até achando legal alguns árbitros dando entrevista. Eu vejo alguns árbitros com Instagram, a galera se soltando mais. Eu não vou dizer que fui o primeiro, mas fui um dos primeiros a ter rede social. Eu decidi lá atrás que não ia viver numa bolha. Obviamente que tem uns filtros ali para eu ler uma mensagem. Eu leio, mas tenho que aceitar ou não. Por incrível que pareça, as críticas que eu mais recebo hoje, quando eu tenho um equívoco, é “Para de apitar que você é velho”. Não que eu sou ruim, falam que sou velho. Quer dizer, o etarismo é muito presente na nossa sociedade, só sabe o que é o preconceito quem sofre. Aí você sabe a dor que é você sofrer um preconceito, machuca, sim. Vou falar isso, e a galera “Agora eu vou chamar o Marcelo só de velho que ele vai sentir” (risos). Não tem como arbitragem e o futebol estarem afastados das redes sociais. O mundo hoje gira em torno disso. A gente tem que saber lidar com isso e levar numa boa. Tem que desanuviar, levar numa boa.
"Se eu fosse prestar queixa na DP para cada ameaça de morte que já sofri na rede social, eu ia viver numa delegacia (risos)".
— Eu levo muito como bravata, levo muito como momento e falo para os mais novos, em alguns cursos que eu dou e de que participo: “Crítica em rede social dura 48 horas”. Pode ser de dirigente, de torcedor. 48 horas. Segura ali as 48 horas, some da rede social que daqui a três dias tudo passa. Por quê? Porque o futebol é muito dinâmico, é rodada quarta, quinta, sábado, domingo, e as pessoas te esquecem. Agora, se você ficar consumindo aquilo, realmente você vai sofrer e não vai sair mais de casa.
Você já chegou a fechar as redes sociais em algum momento?
— Eu já excluí o meu Instagram, com quase 20 mil seguidores, no início. Por causa de críticas. A minha esposa: “Por que você fez isso?”. Eu não suportei aquele momento, foi muito traumático.
Isso foi quando? E por qual motivo?
— Não sei se foi 2008, 2009. Não sei se foi Instagram, se foi Orkut, foi uma rede social dessas. Porque eu tive uma partida em que sofri muitas ameaças de morte, e as pessoas colocaram o endereço de onde minha filha estudava, onde eu treinava, meus telefones. O meu telefone tocava dia e noite, dia e noite. Eu não estava sabendo lidar com aquilo. Eu trabalhava, era militar, não tinha tempo para poder estar prestando queixa. E as pessoas são maldosas. Aí eu resolvi excluir. Só que depois eu falei “Não, eu vou sair dessa bolha, e eu vou tentar levar numa boa”.
Marcelo de Lima Henrique relembra pênalti polêmico em Flamengo x Botafogo
Esse foi o lance na final da Taça Guanabara de 2008, entre Botafogo e Flamengo (o pênalti marcado em cima do Fábio Luciano)?
— Pode ser, pode ser. Botafogo x Flamengo de 2008, pode ser, sim. Porque, ali, meu endereço foi vazado.
"Fizeram uma fotomontagem minha com a camisa do clube. Meu vizinho fez a fotomontagem. Nesse episódio, eu tive que provar que a foto era uma camisa normal, mas o que mais pesou foi que o jornal publicou essa fotomontagem".
— Publicou em primeira capa e, no rodapé, estava escrito “a editoria de imagem atesta que é uma fotomontagem”. Só que ninguém lê. No trânsito no Rio de Janeiro tinha muito isso, né? As pessoas vendendo jornal na rua ou na banca e só olhava o Marcelo com a camisa de um clube. Imagina no nosso estado do Rio de Janeiro, vivendo entre o mar e a montanha, quatro gigantes. Eu fiquei um mês, dois meses sofrendo ameaça, xingamento. Porque aquilo virou uma verdade, e eu tive que levar para a CBF, para a federação a foto original, mostrando que era uma fotomontagem. Então é muito complicado.
Em 2008, suposta foto com camisa do Flamengo causou problemas para Marcelo de Lima Henrique — Foto: Arquivo
Eu nunca vi essa foto original. Você poderia mostrar para nós?
— É só dar um Google. Quem tem Google aí vai ver, só botar “Marcelo de Lima Henrique fotomontagem”, a original está do lado. O jornal depois publicou a foto original e a fotomontagem.
Chegou a tomar alguma medida judicial?
— Nada. Eu nunca tomei nenhuma medida judicial contra torcedor nem contra a imprensa, só contra dirigente. Eu já processei quem ofendeu a minha honra, pode ser o presidente do maior clube do mundo. Ofendeu a minha honra, eu vou para a Justiça tranquilamente. Eu não ofendo a honra de ninguém. Aí o juiz julga lá, sem problema nenhum. Já tomei algumas medidas, sim. Umas eu ganhei, outras não deram em nada. A gente fica vetado de trabalhar naquele clube ali, não tem problema. A gente é refém daquilo que a gente fala, faz parte.
Quem você já processou?
— Eu tive um processo em 2010 ou 11 contra o Alexandre Kalil, do Atlético Mineiro, que tuitou lá. Teve um problema, ele tuitou algumas coisas, eu acionei o advogado e ganhei a ação. Simples assim, mas tranquilo, sem nenhum rancor pessoal, nada pessoal. Faz parte do jogo. É assim que funciona. Infelizmente, é a vida. De repente a pessoa até agiu numa emoção, nem o conheço, tenho nada pessoal contra ninguém.
Você se lembra do valor da indenização?
— Foi pouca coisa, não foi muita coisa. Não foi nada financeiro. O intuito não era financeiro. O intuito nunca é financeiro. Eu processei outra pessoa, que eu me reservo de não de não falar o nome, um grande dirigente. Depois, ele me pediu perdão em frente a todos os árbitros no Rio de Janeiro. E eu falei: “Você está perdoado, eu vou tirar a ação”. Aí ele: "Eu vou pagar as custas”. Eu disse: “Não, eu vou pagar, está perdoado”. Eu só queria essa retratação. “Você se retratou aqui, não precisa, tranquilo”. Não é pelo financeiro. É porque, às vezes, a gente vai deixando muitas coisas para trás. E, quando as pessoas atacam a nossa honra, nem é honra, é uma outra palavra, a gente volta e meia deixa para trás. Eu não aconselho ninguém a deixar para trás. Resolve na hora porque, se não, vai virar verdade.
Marcelo de Lima Henrique encerra carreira no Clássico-Rei — Foto: Thiago Gadelha/SVM
No ano passado, houve a declaração do Alexandre Mattos, dizendo que foi “um assalto à mão armada” depois de um Inter x Cruzeiro. Você iria processá-lo, certo?
— É, ele foi acionado pelo meu advogado, respeitosamente. Mas foi indeferido pelo juiz. Sem problema, foi indeferido.
No Brasil, tem essa coisa do ladrão virar adjetivo, como se não ofendesse a honra do juiz. Foi mais ou menos isso que o juiz entendeu?
— Sim, foi mais ou menos isso. O advogado perguntou se eu queria recorrer, eu falei que não. Está tranquilo, não tem problema. A gente só levou a ação porque eu me senti realmente ofendido, eu não vou andar por aí ofendendo ninguém. Tenho certeza de que se eu, como árbitro, ofender alguém, eu vou estar banido. O árbitro é o contrário. Se eu for no microfone e ofender um dirigente ou um atleta, eu atesto para qualquer um: o árbitro vai ser banido. Quase toda semana tem ofensas, né? A gente vê que as pessoas pagam 10 mil, 15 mil, pegam um jogo, dois jogos e daqui a um mês estão ofendendo de novo. Está tudo bem, está tudo tranquilo. Mas, se fosse o árbitro, estaria banido. É a cultura do nosso futebol, infelizmente.
A principal reclamação do Cruzeiro na ocasião foi a expulsão do Jonathan Jesus nesse jogo. Você ficou suspenso depois disso, não ficou?
— Fiquei dois meses sem arbitrar, sim. Ou mais um pouquinho.
E o que você tem a dizer sobre esse lance? Errou? Acertou?
— É um lance de acerto total. Uma falta que impede uma oportunidade clara de gol. E que o resultado é um cartão vermelho, que foi dado como certo por todos os comentaristas de TV, com exceção de um. Só que esse um é o maior comentarista, que está em maior visibilidade. É a opinião dele, sem problema nenhum, sem rancor nenhum. Isso vira uma verdade, e o clube só quer uma opinião. Eu fiquei sem apitar. Não vou dizer que eu fui punido porque não chegou “Ó, você está punido”.
"Eu simplesmente não fui mais escalado. E aí o torcedor do clube vibra. 'O cara está fora, que bacana'. Só que eu não recebi salário, eu estou sem trabalhar, um cara que está querendo fazer o bem para o futebol".
— Eu vou errar e vou acertar, e foi um lance corroborado pelo VAR. É só a gente procurar aí que vai ver. Só que o clube se vale, né? “Ah o comentarista tal falou que errou, é nessa opinião que eu vou”. Faz parte do jogo.
Qual é o peso da opinião dos comentaristas de arbitragem na vida de vocês?
— Eu penso o seguinte: nós, árbitros, somos prestadores de serviço, não tem como. “Ah, tudo bem, agora vem a profissionalização”. Bacana. Só que se um clube ou uma seleção disser “Eu não quero o João, eu não quero”, a outra também não quer. Por que quem escala vai colocar o João se eu tenho 100 árbitros para poder escalar? Então eu acho tem um peso, sim. Quando você erra e tem uma grande voz de um ex-árbitro falando que você errou, tem um peso, vira uma verdade. Isso é fato. Ainda mais quando é de uma grande emissora, não tem como. Por isso que eu penso que quem está ali comentando tem que ter muito zelo. Porque existem lances que são interpretativos. E, quando você bate que é um erro, aquilo vira uma verdade. Você não vive numa bolha.
"Aí o árbitro é xingado no aeroporto, é ameaçado no aeroporto. Ele não pode sair de casa para poder comprar um pão de manhã porque o comentarista, à noite, falou que você errou numa final um pênalti, você errou uma expulsão. É assim que funciona".
— Então eu acho que é uma função que as pessoas têm que exercer com muita responsabilidade. Nem todos conseguem exercer com responsabilidade. Agora, são opiniões, e a gente tem que respeitar as opiniões e não pode levar para o pessoal. Todos são meus amigos. Eu gosto de todos, são grandes pessoas. Talvez um dia eu seja comentarista, não sei, pode ser também, mas eu vou tentar tratar aquilo ali como opinião apenas. Mas pesa muito, sim. Ainda mais quando você é mais jovem.
A família do árbitro sofre muito?
— Não sei a nova geração. Mas, na minha geração, para você se tornar um árbitro de elite, era um projeto familiar. Eu não estou vivendo a profissionalização, não vivi. Você tira dinheiro da sua família para comprar um tênis bom para treinar. Você tira o dinheiro da sua família para pagar um médico, um fisioterapeuta, um relógio que mensura. Então é um projeto familiar. Você deixa de ir com a sua família para um sambódromo. Há quanto tempo que não vou no Maracanã assistir a um jogo? O Marcelo de Lima Henrique e todo árbitro que apita em alto nível não podem ir ao estádio ver um jogo. Eu fui no jogo da seleção brasileira há pouco tempo, Brasil x Chile. Eu não consigo assistir ao jogo porque as pessoas me perguntam tudo. Alguns ofendem, mas na minha etapa, já com uma carreira longeva, eu recebo até muito carinho, é legal. Acho que as pessoas se identificam, “Bacana, esse coroa está apitando, legal”. Mas é um projeto familiar, não tem como, a minha família se priva de muitas coisas. Às vezes você não pode estar em certos ambientes porque as pessoas são muito emocionais. A família foi muito importante nessa trajetória, sem sombra de dúvida.
Marcelo de Lima Henrique concede entrevista no Abre Aspas, do ge — Foto: André Durão / ge
E como você descobriu a fotomontagem do vizinho em 2008?
— Ele veio falar comigo, era um amigo, um garoto bem mais novo que eu. Ele era torcedor do clube. “Poxa, Marcelo, viralizou a montagem, fui eu que fiz, me desculpa”. Falei “Cara, está perdoado. Só que tu me causou um dano tremendo”. Mas eu não vou levar para o coração, faz parte. Era um garoto novo, não foi de maldade. Foi de bravata, foi de zoeira, como a gente fala aqui no Rio de Janeiro. Acontece, a pessoa pública está sujeita a isso. “Ah por que não processou, isso, aquilo?” Não é do meu feitio, Como eu falei, honra é uma coisa, mas ali foi outra, foi uma brincadeira, faz parte.
Essa montagem foi depois daquele Flamengo x Botafogo de 2008, na final da Taça Guanabara. Você marcou um pênalti em cima do zagueiro Fábio Luciano que gerou muita polêmica. O que você tem a dizer sobre esse lance?
— Foi o seguinte... Para contextualizar, foi o meu primeiro clássico no Rio de Janeiro apitando pelo Campeonato Carioca. Eu tinha apitado Flamengo x Vasco pela CBF, em 2007. Meu primeiro clássico no Rio de Janeiro, uma final de Taça Guanabara e já vinha uma rivalidade de anos entre Flamengo e Botafogo. Em 2007 expulsaram o Dodô num lance em que ele não estava impedido, ele fez o gol. E o Dodô ia ser o batedor nos pênaltis. Então vinha aquela carga ali de 2007, e muitas pessoas falam que eu expulsei o Dodô. Não fui eu, essa conta não é minha. Aí eu estou apitando o jogo ali, jogo tranquilo, dois timaços. De repente, um escanteio. Quando eu olho, está o jogador querendo subir na bola e o outro com a camisa dele, quase tirando. Aquilo é o instinto de fazer o certo. Eu “piii!”, pênalti. Quando marquei o pênalti, fez o gol, foi aquela gritaria. Eu expulsei dois jogadores, um de cada lado. Depois do pênalti, para conduzir o jogo até o final, foi muito complicado, um jogo muito emocional. Passei do jogo, fui para casa. “Caramba, e aí? Fui bem? Fui mal?
— Na segunda-feira, eu fui para o meu trabalho com essa dúvida ainda: será que eu fui bem, fui mal? Quando eu chego no engarrafamento subindo a ponte Rio-Niterói, tinha um menino vendendo jornal, e a capa do jornal O Globo, se não me engano, era essa foto. Eu olhei e pensei “Caramba, se eu não marcasse esse pênalti, eu estava morto”. Porque foi pênalti. E aí repercutiu muito positivamente para mim. Na outra semana começava o Brasileirão, eu estava escalado já. E o interessante foi que, em 2010, eu apitei uma final Vasco x Botafogo e marquei um pênalti em cima do Loco Abreu, com o jogador segurando. E aí o jornal comentou: o mesmo árbitro, o mesmo critério. E aí ficou bacana para mim. Mas ali foi um divisor de águas, eu fiquei como um árbitro corajoso. Porque, nessa época, ninguém marcava os pênaltis, seguravam na área, faziam de tudo. Só que eu resolvi marcar e foi isso. Para mim, foi uma repercussão muito positiva, apesar de ter passado um mês, dois meses ali sendo ameaçado de morte, ofensas. Mas, no final, foi muito bacana. Para mim foi muito positivo.
E o gol impedido do Márcio Araújo, do Flamengo, na final do Carioca de 2014? O que você se lembra desse jogo e desse lance?
— O de 2014 foi muito brabo porque as pessoas se esquecem que a partida estava 1 a 0 para o Vasco da Gama, com um pênalti que eu marquei do Erazo. Não sei se foi em cima do Douglas. Acho que o Douglas fez o gol, que foi do Grêmio, me dava muito bem com ele. 1 a 0 Vasco, tranquilo. Excelente arbitragem, um jogão. No último lance do jogo, eu lembro muito bem. Ia ser o último lance, acréscimo curtinho, de três minutos ou dois que eu tinha dado. O Vasco sendo campeão. Na hora do escanteio, o Rodrigo, zagueiro do Vasco, cai sentindo dores, muitas dores. Eu falei: “Rodrigo, se eu te atender, você vai ter que sair. É escanteio contra o teu time”. Essa resenha existe. E o cara “Marcelo, não aguento, eu tenho que sair, tenho que ser atendido”. Eu falei “Cara, vou te atender e você vai ter que sair”. E não deu outra. Ele saiu. Aí aconteceu o escanteio, cobrou e tal. É tudo muito rápido.
— E as pessoas esquecem que existem os especialistas. Ali é lance de impedimento, eu não sou bandeirinha, eu estou vendo de frente o jogo. É muito rápido. Entram o Nixon e o Márcio Araújo, tinha um árbitro adicional ali também. E aí ficou naquela dúvida: quem fez o gol? O Nixon? O Márcio Araújo? Se é o Nixon, o gol está legal. Se é o Márcio Araújo, estava em posição de impedimento, que o assistente não viu, ninguém falou nada. É engraçado que, quando sai o gol, quem pega o vídeo vai ver, eu olho para o meu adicional, eu olho para o assistente, ele corre, aí eu corro para o meio. Quer dizer, todo mundo validando o gol. E, mais uma vez, não é querer me eximir, mas eu não sou assistente. Eu não sou, eu sou o árbitro central. Tanto que hoje tem o VAR, o impedimento semiautomático, é muito rápido. O futebol de alto nível é muito rápido. E aí aconteceu, esse foi o último lance do jogo, a emissora não tinha dado o replay. Foi muito engraçado. Assim que o Vasco saiu com a bola, eu acabei o jogo. Quando eu saí dali, eu encontrei com todo o pessoal da Federação, o falecido presidente do Vasco Roberto Dinamite. Todo mundo me parabenizando “Marcelo, excelente partida”. Porque foi uma excelente partida. Ainda não tinha dado o replay ainda. Foi muito engraçado. Quando nós chegamos lá no vestiário, começou uma gritaria de fora, a emissora deu o replay. Estava impedido.
— Acho que era o Arnaldo (Cezar Coelho) comentando, falou que estava impedido. Eu estava no vestiário, meu telefone começou a tocar, um grande amigo que eu tenho, Antônio Frederico Schneider, eu chamo ele de Pantera Cor de Rosa, especialista em Big Brother, sabe tudo (risos). O Schneider diz: “Marcelo, parabéns, apitou para caramba, pênalti bem marcado, bacana. Só tem um problema”. Eu falei “O quê?”. “O gol estava impedido”. Falei “não acredito, cara”. O gol estava impedido, ele me mandou a imagem. Eu peguei para mostrar para os assistentes que estavam na outra parte do vestiário. Falei “Olha aí, olha o gol do Flamengo”. Aí um dos assistentes arregalou o olho. Eu falei “Um clube foi campeão com gol irregular, cara”. É um erro, vai fazer o que agora? Eu falei “Prepara, amigo, isso é Rio de Janeiro”. Foi brabo. No outro dia eu estou no meu quartel trabalhando, eu servia no CEFAN da Avenida Brasil. No outro dia, eu estava na porta do quartel, de sargento ali vendo quem entrava e quem saía. No Rio de Janeiro, ou é um time ou é outro. E eu passei um dia ali de perrengue no quartel. Cheguei no armário, estava cheio de recorte de jornal, “Gol impedido”. Só que faz parte da nossa atividade. Foi a última final que eu apitei no Rio de Janeiro, de estadual. Depois, em 2019, ainda apitei na final de Taça Guanabara, Flamengo x Boavista, mas faz parte da atividade.
Marcelo de Lima Henrique diz que voltaria atrás em gol impedido do Flamengo contra o Vasco
Já tentaram te agredir na rua, alguma coisa assim?
"Não. Me agredir não. Mas já vieram falar bobagem, eu já segurei um pelo pescoço. Não sou brabo. É porque o cara passou do limite".
— Foi no shopping. Eu andava, o cara me xingando. Até que eu dei dois passos, tinha essa mania de segurar pelo pescoço. Para não dizer que eu agredi, eu segurava pelo pescoço, a mão é grande de goleiro. “Ah, me solta”. Falei “Então para de me xingar”. E depois desse Flamengo x Vasco de 2014, foi engraçado também que, depois de um mês ainda sofrendo ameaça, a esposa resolveu ir no cinema com a família toda, os três filhos, um casal de amigos. Eu na fila comprando pipoca, uma senhora e o esposo começaram a me xingar. Essa amiga foi lá, deu um tapa na pipoca, mas deu um tumulto na fila do cinema por causa do Flamengo x Vasco. Eu assistindo ao filme, eles lá me xingando, os seguranças tiveram que tirá-los. Mas agredir não. Acho que é porque sou grande, essa cara feia, o pessoal nunca tentou agredir (risos). E torcedor é muito emocional e violento quando está em bando, né? Quando está sozinho, geralmente ninguém sabe quem é quem.
Você, como fuzileiro da Marinha, anda armado ou tem porte de arma?
— Apesar de poder ter o porte de arma e ter autorização para andar armado, eu nunca andei armado. Eu não acredito na força da arma que mata, acredito em outras forças. A minha segurança é Deus, sem hipocrisia. Fui fuzileiro por 30 anos, mas eu não gosto. Sou cidadão carioca, do Rio de Janeiro, e infelizmente na nossa cidade as pessoas, os meliantes, marginais andam de fuzil. Do que adianta eu andar de pistola? Eu vou estar colocando em risco a minha própria segurança. Sem hipocrisia, sem papo religioso, mas eu creio muito em Deus. Essa é a minha arma. Quando sai de casa, faz uma oração. Quando a gente está no caminho, faz outra. E quando chega em casa, é só gratidão.
Você acha que o árbitro perdeu um pouco de responsabilidade e transferiu para o VAR?
— Esse é o grande desafio dos árbitros da nova geração. O árbitro da nova geração tem que apitar aquilo que vê. Para isso, o cara tem que estar bem condicionado fisicamente para estar próximo e angulado, bem treinado, bem oxigenado. E ele fala, tudo hoje é comunicado. Ele apitou um pênalti porque empurrou o adversário, cartão amarelo. “A bola estava em disputa dentro da área, impediu um gol. Mas, como a bola estava em disputa, cartão amarelo”. Tem que comunicar. Antigamente, lá atrás, antes do VAR, a gente apitava muito pelo feeling. Quem é árbitro antigo sabe. O cara achava, ele não conseguia ver tudo. Hoje você tem que apitar aquilo que você vê realmente. E se o árbitro não apitar aquilo que ele vê e ficar transferindo para o VAR, fica claro para quem está vendo o jogo fica claro. Depois, no fim do ano, tem as estatísticas. O árbitro usou 50 vezes o VAR, esse aqui usou menos o VAR. Então acho que é o grande desafio da nova geração e de quem instrui os árbitros, é fazer com que os árbitros apitem aquilo que ele vê. E tem que estar bem preparado.
— A arbitragem brasileira hoje é muito mais preparada do que a de antigamente, não tem nem sombra de dúvida. Eu sou filho de árbitro. Antigamente, meu pai pegava a bolsinha dele domingo, ia apitar Carioca de manhã e durante a semana era vendedor, dava uma corridinha um dia. Hoje o árbitro cria uma condição profissional para trabalhar. Só que o futebol é mais veloz, mais pegado. E o VAR traz esse desafio para a nova geração, tem que apitar aquilo que vê. Se errou, o VAR: "Opa, sugiro revisão”. Vai lá e corrige o erro, o futebol aceita como erro e é claramente corrigido. O futebol não aceita quando tem um erro claro e o VAR não corrige. Aí vai tudo em cima do VAR.
Marcelo de Lima Henrique mostra o cartão vermelho para Fred no clássico entre Fluminense e Vasco — Foto: Luciano Belford / Futura Press
Para o árbitro estar bem preparado, ele tira do próprio bolso? Quanto você investia na sua preparação?
— Todo árbitro que atua em alto nível hoje, pode ser Série A ou Série B do Brasileiro tira... Eu tinha o meu médico, que eu pagava anualmente R$ 2 mil. Aí ele me passa suplementação, de 45 dias em 45 dias eu gastava R$ 1.500. Bota R$ 1 mil por mês, dividindo. Querendo ou não, você tem que estar com tênis de R$ 1.500 de três em três meses, quem treina todos os dias sabe que é isso. Eu tinha o patrocínio de uma academia, depois o patrocínio caiu. Quem quiser estou aí para ser patrocinado (risos). Então eu pago a academia, mais R$ 200. Você já vai para R$ 3.200. Eu faço fisioterapia duas vezes na semana. É R$ 150 cada sessão. Então acho que, por mês, o árbitro hoje para estar em condições profissionais, com toda aquela alimentação, tem um investimento entre R$ 4 e 5 mil. É disso que você precisa para estar em atividade. É basicamente isso, porque o futebol é de alta intensidade. Se alguém consegue treinar sem ter essas condições, parabéns. Eu, com 55 anos, tinha esse investimento para poder estar inserido no futebol de alto nível.
E, quando o árbitro se machuca, o tratamento também é todo por conta dele? Você já sofreu uma lesão séria no tendão. Como foi esse processo de recuperação?
— Eu tive a lesão no tendão calcâneo em 2016, eu já vinha com essa lesão uns três anos antes. Aí apitando um Chapecoense x Internacional, muito frio, rompeu de vez e fiquei um ano sem apitar. Na época eu gastei no meu pé R$ 40 mil. Hoje deve estar em R$ 60 mil com fisioterapia e com ajuda de vários fisioterapeutas. Hoje é engraçado porque essa galera... Um que me ajudou muito está no Botafogo. Não vou nem falar o nome porque a torcida vai falar “Tu ajuda esse cara”, vai lá xingar o amigo. O outro está no Palmeiras e o outro no Flamengo. São pessoas que me ajudaram muito. Todos eram da Marinha, do Cefan. Mas, com todos os gastos, deu por volta de R$ 40 mil. E é por conta do árbitro. Acho que, agora, com o programa PRO, a galera tem uma ajuda. Mas os árbitros que estão no quadro não têm essa ajuda, é cada um por si e realmente.
— “Ah, Marcelo, é uma loucura, como é que você está nessa?”. É uma paixão, cara. É uma cachaça. Tu gosta de estar ali inserido no campo de jogo. É assim que funciona. E tomara que esse programa PRO amplie porque a arbitragem brasileira, o futebol merece. A CBF está de parabéns por ter iniciado esse projeto. Porque há 40 anos a gente ouve falar que tem que ser profissional. Então foi dado um grande passo, eu acho que a gente vai colher frutos daqui a três ou quatro anos. Não adianta a gente querer achar que porque entrou o PRO a gente vai ter uma melhora daqui a um ano.
Marcelo de Lima Henrique revela que jogador é "mala" no futebol
O que mais te irritava no comportamento de um jogador de futebol no campo?
— É até interessante. O futebol é um esporte que muitos praticam a vida toda e não sabem a regra. E muitos são treinadores a vida toda e não sabem a regra. O que mais me irrita é o jogador não saber a regra básica. Um exemplo, apitei um jogo há pouco tempo. O jogador chutou a bola no próprio braço. Não é que a bola desviou, ele foi dar um chute a bola bateu. E o outro jogador “Pênalti, pênalti”. Eu tive que dar um cartão amarelo porque ele não parava de reclamar, e o treinador dele também. Parei o jogo: “Cara, olha só, eu vou te ensinar”. Eu falei ensinar, ele ficou louco. “Tá bom, eu vou te repassar: não é pênalti, é a regra, bicho, ele chutou no próprio braço”. Então o que mais irrita é você ter que repassar conhecimento, ensinar a regra do jogo para atletas rodados, de alto nível, que às vezes ganham R$ 50, 100 mil. E o cara não sabe a regra do jogo.
— É uma coisa que os clubes de alto nível têm que encarar. Tem que ter o ensino da regra do jogo desde a base. Isso faz a diferença. Leonardo Gaciba foi contratado agora por um grande clube, já esteve em outro. Na Europa, vários grandes clubes têm essa assessoria de arbitragem. O Marcelo, quando parar aí no começo do ano, vai estar livre para algumas propostas (risos). Se tiver esse ensino da base até o profissional, vai ter uma grande valia. Para quê? Para os jogadores usarem a regra ao seu favor. E, pelo contrário, o que mais me agrada é quando a gente vê jogadores que sabem a regra do jogo. Aquilo é muito bacana, você pensa “Esse cara é diferenciado”. E geralmente são jogadores que tiveram uma boa base ou que vieram da Europa. Você fala “Esse cara teve algum ensino, ele usa a regra em favor dele”.
Achei que você pudesse dizer que a simulação era o que mais te irritava.
— A simulação é uma questão cultural, né? Eu assisto muito à Premier League. Se um jogador simula lá, a própria torcida acaba com o cara. Acho que é a nossa cultura latina de ganhar vantagem em tudo, de fazer o gol com a mão, impedido, ajoelhar e agradecer a Deus. É o cara às vezes dar um tapa na cara do seu colega e achar que está tudo certo. Então, a simulação é um mal do futebol. No passado, eu arbitrei um jogo de Série A, o jogador fez uma simulação tão descarada que, quando ele fez, eu “pii!”, pênalti. Quando eu estou marcando o pênalti, a bola sobrou para um companheiro, e o companheiro “saco, gol!”. Eu falei “eu já tinha apitado”. O VAR sugeriu revisão. Cheguei lá, simulação. Só que eu tinha apitado antes de a bola entrar. Simulação, tiro livre direto daqui para lá e cartão amarelo para esse jogador que simulou. Quando eu estou saindo, o presidente reclama: “Marcelo, você tinha que ter esperado”. Eu falei: “Chefe, pênalti geralmente não tem vantagem. Sabe de quem é a culpa que eu anulei o gol? É dele que simulou. A culpa é dele porque eu marquei o que eu vi ali”. Então o presidente com sua cabeça é mesmo a simulação é o mal do futebol, cara. Isso não tem que ser combatido só pelo árbitro, é pelo futebol, é pela imprensa, é pela torcida.
Você disse que gosta de levar o jogo na resenha, na conversa. Essa sempre foi uma característica sua?
— Então, eu venho da bola, eu fui jogador de futebol, mesmo que na base. Eu penso que o árbitro é um servidor do futebol. O futebol existe sem mim, então eu tenho que servir o jogador, o jogador tem que ter confiança em mim. E como é que uma pessoa vai ter confiança em uma autoridade? Se houver o diálogo. A regra do jogo me permite isso, de ter uma advertência verbal, depois amarelo, depois vermelho. Tentei levar grande parte da minha carreira assim, funcionou muito bem, o tempo todo.
— Tem pouquíssimos treinadores que eu expulsei, eu tenho poucas expulsões na minha reta final de carreira. Acho que o diálogo é o melhor remédio, é a melhor maneira de, às vezes, tentar explicar a regra, que tem mudado o tempo todo. Tem jogador que, pelo tempo de bola, não entende algumas regras. E a gente tem que, até em alto nível, repassar conhecimento e ensinar a regra para algum jogador. Eu vou ensinar como? É no amarelo? No vermelho? De repente no diálogo funciona melhor. E funcionou comigo até o final.
Teve alguma interação com jogador durante o jogo que tenha te marcado, que você se lembre até hoje?
— Cara, tem várias. Eu até contei uma que as pessoas duvidam. Eu estava fazendo um jogo do Dida na Portuguesa, era Portuguesa x Grêmio. Ele fez uma defesa espetacular. Eu sou fã do Dida. Eu fui goleiro, eu fico observando os goleiros. E foi uma defesa espetacular. Aí, no escanteio, eu fui perto dele e falei “Cara, que defesa, meu irmão. Parabéns”. E o jogo foi muito bacana. Acabou o jogo, ele: “Pô, Marcelão, parabéns, você apitou muito bem, parabéns mesmo. Eu falei: “Ganhei meu dia”. Então essa resenha foi bacana.
Alguma outra?
— Apitando um Grêmio x Juventude, 1 a 0 Grêmio. O goleiro do Juventude, Douglas Friedrich, um russão... Acabou o jogo, ele “Marcelo, me dá a tua camisa? Eu sou teu fã, gosto de você”. Ele queria no campo. Eu falei: “Cara, primeiro que, se eu te der a camisa aqui, tua torcida vai te bater, você perdeu o jogo. E eu só tenho essa camisa preta para apitar o campeonato todo, eu vou ficar sem camisa". Aí chegou no final, lá no túnel, eu dei a camisa para ele e levei o resto da temporada só apitando de amarelo, azul e vermelho, porque eu só tinha uma camisa preta.
— O árbitro tem isso, tá? Agora não, agora nós estamos com duas camisas de cada cor, bacana. Mas era uma camisa só e eu dei para o Douglas, foi uma resenha bacana também. E teve uma do Marinho quando estava no Santos. Ele fez um gol, mas foi um golaço lá na Vila. A bola estava entrando, eu vi que ia ser um golaço. A bola viajando, e eu “Golaço!”, perto dele. O gol é todo gravado. Aí foi lá para o chefe: “Cara, você vibrou com o gol do cara, evita falar porque é um documento”. E realmente é um documento. Mas, como eu sou do futebol, acontecem essas coisas, é da emoção. Eu acho que a resenha é válida, no respeito ali. A gente é humano, tudo é válido.
Você teve a oportunidade de apitar mais de um Gre-Nal. Como foi essa experiência? É o clássico mais difícil de apitar?
— Acho que é o meu maior troféu, cara. Eu sou o árbitro de fora do Rio Grande do Sul que mais apitou Gre-Nais. E eu apitei a finalíssima agora, né. Rio Grande do Sul, terra de Simon, de Gaciba, de Vuaden, de Daronco, de Klein. No ano passado, tinham 10 árbitros FIFA, e a Federação, junto aos clubes, escolheu o árbitro mais velho do Brasil, 54 anos, para apitar a final do Campeonato Gaúcho. Me senti muito honrado. Pra mim, é o clássico mais difícil do Brasil, porque é muita rivalidade. Eu falo que é o maior clássico do mundo porque nós estamos no futebol pentacampeão do mundo. Então, se é o maior clássico do Brasil, é o maior do mundo. É muita rivalidade, é muito gostoso. Eu me dou bem com jogos do Grêmio e do Inter, eu gosto muito de estar ali, tenho muito apreço pelo Rio Grande do Sul. Este ano eu apitei duas finais de várzea no Rio Grande do Sul, fui contratado por uma cidade do interior lá. Muito bacana o apreço da galera e o respeito. Eu gosto muito de estar ali. Com todo respeito aos outros clássicos, eu sou carioca, apitei, sei lá, 10 Flamengo x Vasco, mas o Gre-Nal para mim é o número um. Tem um clássico só que eu não apitei, que foi Palmeiras x Corinthians. Todos os outros do Brasil eu apitei, vários Re-Pa, vários Ba-Vi, mas o Gre-Nal é bom demais.
Vamos falar o nome de alguns jogadores, e você diz se ele é difícil ou não de lidar, se é chato ou se já teve alguma história, ok? O primeiro é o Hulk.
— O Hulk eu tenho uma passagem bacana. O Hulk tinha vindo de um episódio problemático com um árbitro, não me lembro o nome, e aí eu fui apitar o jogo seguinte. Ele estava muito arisco. Aí teve um lance que ele veio reclamar comigo, eu falei "Hulk, a gente tem que se ajudar, cara, a gente é lá de 'riba'", uma coisa que a gente fala, já que o Hulk é da Paraíba e minha família toda é do Nordeste. Meu pai é piauiense, meu avô é paraibano, minha avó é pernambucana. Falei "Cara, a gente tem que se ajudar, vamos nos ajudar". É a resenha que eu te falei. "Cara, é difícil apitar. Se foi falta em você e eu não marquei, me desculpa". "Não, não, Marcelo, valeu, valeu". E a partir dali eu passei a me dar muito bem com o Hulk. Nunca tive problema com o Hulk.
Gabigol.
—O Gabigol no início da carreira era mais complicado, quando jogava no Santos. Agora eu vejo ele como um jogador mais maduro, está jogando bola. Está legal ver o jogo dele, está tranquilo.
Fred (Ex-Fluminense).
— O Fred é bacana, o Fred é um desses caras que, lá no início, a gente tinha muito embate. Sempre foi um jogadoraço, craque. Muito embate, cartão amarelo, cartão vermelho. Teve uma vez que eu expulsei o Fred num Fluminense x Vasco, no Maracanã, e ele ficou uma arara comigo. Mas depois, do meio para o final da carreira, virou um cara que ajudava a arbitragem, como todo grande jogador. Ele acabou a carreira dele ajudando a arbitragem.
Luciano.
— Ah, o Luciano é um jogador muito sanguíneo, como a gente fala. Ele precisa jogar, precisa falar, precisa discutir. Acho que isso move o Luciano. E às vezes o cartão amarelo até faz bem para o Luciano (risos), para ele poder continuar jogando bem. Mas é mais um jogador com quem eu nunca tive problema pessoal, tenho certeza de que não tem raiva de mim, sempre tratei ele com muito respeito. Mas já dei alguns cartões amarelos para ele, sim.
Gustavo Gómez.
— O Gustavo Gómez é um líder, é um grande jogador. Eu expulsei o Gustavo Gómez uma vez porque ele teve problema com um assistente, não gostou de uma marcação, soltou um palavrão, eu tive que proceder. Mas é um líder, um grande jogador, ajuda muito a arbitragem. É um jogador muito inteligente.
Neymar.
— O Neymar é um craque, cara. Olha o tanto de entrada perigosa que o Neymar já sofreu, e o craque tem que ser protegido pela arbitragem, sim. Não é passar a mão na cabeça, é entender que o cara está ali para jogar futebol. Eu não lembro do Neymar dando uma entrada em ninguém para quebrar, e eu lembro de 200 jogadores tentando dar uma entrada no Neymar. E quem joga bola um pouquinho sabe que, se você tomar entrada toda hora, uma hora você fica chateado. Então acho que você tem que cuidar do craque, sem passar a mão na cabeça. Mas é um jogador com quem eu nunca tive problema disciplinar.
D'Alessandro.
— O D'Alessandro é uma história à parte. Argentino, muito efusivo, reclamava demais. Mas, no meio da carreira, ele ficava muito no banco lá no Inter. E eu tinha uma resenha monstra com ele, porque ele ficava "velho, velho", me chamava de velho. "Tem que parar de apitar". Eu falei "D'Ale, quando você parar de jogar, no outro ano eu paro de apitar. Ele parou de jogar tem uns cinco anos já, eu continuei apitando (risos). Depois encontrei ele lá no Cruzeiro, como dirigente. É um grande cara que o nosso futebol brasileiro teve. Deu para levar, deu para levar a carreira toda de boa
Diego Ribas.
— Craque de bola também, teve uma passagem com ele muito interessante. Ele veio da Alemanha, Diego Ribas, seleção brasileira. E eu fui apitar um Flamengo x Madureira, o Diego estava siri na lata, cara. Não estou entendendo esse cara. Tudo que eu marcava ele reclamava. Eu falei "Ou eu vou amarelar o Diego e expulsar ou eu vou ter que entrar na mente dele". Ele não sossegava. Eu fui no Réver, que era o capitão, e falei "Réver, fala para o Diego que acho que ele ficou muito tempo lá fora e não me conhece não, hein. Eu vou tirar ele do jogo". Ele foi no ouvido do Diego, segurou a onda, e depois apitei grandes jogos do Diego. Ele voltou lá de fora meio complicado, mas depois deu uma apaziguada (risos).
E os treinadores que ficam berrando na beira do campo? Dão mais trabalho?
— Eu penso o seguinte, até digo isso quando eu dou aulas para os jovens. Em algumas federações, eu falo assim: “Gente, é muito difícil apitar”. De fora, em casa, deitado no meu sofá, eu não erro um lance. Mas, dentro do campo, é muito difícil. Futebol brasileiro mais ainda, porque tem a cultura da simulação. Eu falo o seguinte: “Foque no campo de jogo”. Porque o treinador, quando ele se exaltar demais, é igual ao cara que avança o sinal, todo mundo vê que ele avançou. Se eu ficar tentando acertar pênalti ou não pênalti, falta ou não falta e olhando para o banco de reserva, onde pouco importa, eu vou errar. Só que é ruim porque, às vezes, tem treinador que transfere o nervosismo dele para dentro do campo de jogo, ele faz mais mal à equipe dele do que à arbitragem. Mas nunca tive problema com treinadores, não. Expulsei poucos, mas teve um que eu expulsei... eu expulsei o Parreira, cara.
E como foi isso?
— Foi num Fla-Flu, foi a primeira expulsão do Parreira na carreira (risos). E desceram a madeira em mim. “Como é que pode esse árbitro expulsar um tetracampeão?”. Ele não estava gostando da minha arbitragem, virava para a torcida e abria o braço. Fazia esse gestual. Naquela época, eu não tinha cartão vermelho. Ele jogou a torcida contra mim várias vezes. Teve um hora que eu, já irritado, falei “Sai!”. Expulsei ele. Os comentaristas da Globo meteram o malho em mim porque eu tinha expulsado o Parreira, faz parte. Se fosse hoje, acho que eu deixaria ele lá. Realmente, eu fui muito criticado por ter expulsado o Parreira, mas eu não me lembro de outros treinadores. Expulsei poucos treinadores.
Quais treinadores?
— Eu tive duas expulsões com o Cuca, mas me dou muito bem com o Cuca. Expulsei poucos treinadores. O cara tem que se exaltar demais para eu poder expulsar o cara. Porque eu tento focar no campo de jogo.


